Sei que o filme já foi lançado há bastante tempo, Coutinho já fez outros filmes tão bons quanto este. Mas foi com Edificio Máster que aprendi a gostar de documentário e percebi o que queria fazer: observar a vida e contar histórias...
O filme começa com a equipe do documentário entrando no prédio, e sendo gravada pela câmera de vigilância. As três primeiras entrevistas, Vera, o síndico Sérgio e Esther, relatam a vida do prédio, chamando o espectador a conhecer o que vai ser filmado. Coutinho optou por montar o filme respeitando a ordem das entrevistas.
O Edifício master deixava para trás um passado “condenável”, repleto de histórias envolvendo prostitutas, travestis, policiais, drogas e vinha se transformando em um prédio “familiar”. (LINS, 2003)
Coutinho, neste filme, opta por representar a classe média, personagens comuns, sem aparente atrativo. Assim, pessoas reais contam fragmentos de sua existência, a confissão se torna à narrativa do filme. Como a banda que veio do Sul do país, tentar a vida em São Paulo; Roberto que se transforma em camelo por falta de emprego; Antonio Carlos que se emociona com o reconhecimento do Patrão com o seu trabalho. Estes são alguns dos recortes do cotidiano que se apresentam no filme, provando que pessoas comuns podem se tornar personagens interessantes.
O Diretor permite que seus personagens entrem em contradição, mostrando o conflito interno do ser humano. Carlos e Maria Regina falam da dificuldade do relacionamento, do amor que se encerra, terminam sua narração dizendo “nós não prestamos, mas nos amamos”. Alessandra se contradiz durante a conversa “esse mundo aqui é muito ruim, eu sofro muito, quando eu morrer serei feliz, mas eu não quero morrer não, não quero mesmo”.
Seus personagens dão exemplos de vida, confessam seus segredos, emoções, pensamentos, frustrações, receios, misérias, e nos emocionamos com estas histórias e nos identificamos com elas.
Master é um tratado sobre a solidão humana, e como as pessoas são sobreviventes a ela. A fuga, pela poesia, canto ou pintura, é um revelador dos mecanismos utilizados, pelos entrevistados, para se libertarem da vida que levam.
Através do conhecimento do mundo dos personagens, que vão se revelando diante do espectador, percebemos a fragmentação do homem moderno, seu não encaixe, sua não inserção, a disputa entre ele e o mundo, com seu tempo diluído em formas e sentidos impregnados de vazio.
“Lá tem escassez, não miséria, e a violência é muito mais simbólica. Você lida com a substância da vida das pessoas, ou o que restou delas”.(Lins, 2003).
Uma das cenas mais emocionantes do filme é quando Srº Henrique canta “My Way” de Frank Sinatra, para a câmera. O personagem que já morou nos Estados Unidos, tem três filhos bem-sucedidos na vida, hoje mora sozinho, e para espantar a solidão escuta a canção dois sábados por mês.
Master nos proporciona presenciar, no filme, as contradições do mundo moderno: a solidão em meio ao tumulto, ao caos urbano; o anonimato e a visibilidade; a reserva e a impossibilidade de privacidade. Daniela, professora de Inglês, um dos depoimentos mais fortes do filme, fala sobre estas questões. “São os olhares que colocam a selva de pedra como um lugar em que há muita paranóia, muita invasão, em que de alguma forma parece que estamos sempre sendo assistidos”.
O ultimo depoimento é de uma jovem que pergunta a Coutinho “o senhor é quem?”, e diz que é muito difícil pensar o que vai ser da vida. O documentário acaba com a garota dizendo que não se imagina, na verdade, nada. Coutinho, com a ultima entrevista, finaliza o filme ressaltando que é impossível concluir a vida de um personagem, uma história e o próprio documentário.
o filme fala de escolhas, de solidão e prova que qualquer vida pode ser interessante, basta olharmos pra ela.
sábado, 4 de julho de 2009
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