
"Depois que pulei é que comecei a pensar
A vida é perfeita
A vida é ótima
É cheia de magia e beleza
Oportunidades e televisão
E tem aquilo que todo mundo deseja muito
Mas só sente depois que já não pode ter
Eu percebi isso derrepente
E acho que ninguém enxerga isso com clareza quando
Está vivo".
Wim Wenders nasceu na região de Rhury em 1945, na Alemanha. O país estava em ruínas pela guerra. Na juventude, viveu a esperança e frustração dos acontecimentos de maio de 68, ocorridos na Europa, especialmente na França e na Alemanha. Dessa época veio o seu apreço pelos problemas sociais, políticos e humanos. Sua vocação sempre foi à pintura. Em 1966 está em Paris e começa a gostar de cinema, encarando a possibilidade de se dedicar à crítica cinematográfica e a história do cinema. Já na década de 70 inicia sua carreira como realizador.
1. O Universo de Wenders
Os filmes de Wenders surgem, no fim dos anos 70, para acabar com a estagnação do cinema alemão do pós-guerra. Em sua temática percebemos uma crítica ao capitalismo, mas ao mesmo tempo, o cineasta alemão deixa passar nos seus filmes, uma certa euforia com as regalias proporcionadas pela sociedade de consumo e com o potencial das novas tecnologias, responsáveis, dentre outros fenômenos, pelo encurtamento das distâncias. Os personagens de Wim Wenders são consumidores entusiásticos de jogos eletrônicos, coca-cola e rock, mas também enfrentam terrível solidão e vazio existencial. O movimento lento da câmera, filmando imagens de personagens localizados em diversos lugares do mundo, é uma tentativa de representar um falso movimento do ser humano.
Para entendermos melhor a temática desse diretor, utilizarei a conceituação de Zigmund Baumam, que utiliza a metáfora dos turistas e vagabundos para ilustrar quem são as vítimas e os heróis da pós-modernidade, quem são os que apenas vêem as novidades como espetáculo, e aqueles que escolhem a vida que vão viver.
Em uma sociedade marcada por um tempo/espaço flexível, em constante mutação, o que vale é a habilidade de se mover. O espaço deixa de ser um obstáculo nesta nova sociedade em que a distância parece não importar muito. Para o autor, somos viajantes, mesmo quando parados, nos movemos pelos canais de Tv e através da web.
Os turistas são aqueles que não se fixam em lugar nenhum, estão à procura de novas emoções, novos caminhos e lugares. Fixam-se em tempo de realizarem seus sonhos, suas fantasias, seus desejos de consumo, enfim, seu estilo de vida. A peculiaridade da vida do turista é estar sempre em movimento, nunca chegar. Ele busca o desejo, que nunca é alcançado, sempre renovado. Já os vagabundos se movem por não serem aceitos, são obrigados a se mover pela necessidade de sobrevivência. Plagiando Bauman “São luas escuras que refletem o brilho de sóis brilhantes; são os restos do mundo que se dedicaram aos serviços dos turistas”.
É assim que Wim constrói seus personagens, com características nômades, do andante, do vagabundo. Em “Hotel de Um Milhão” (2000), o diretor busca o mundo suburbano, de homens que estão à margem, o universo da rua e o desapego. No filme, um de seus personagens, num dado momento fala “O mundo estava rápido naquela noite, e eu só queria poder me agarrar e fazer parte dele”. Esse é o vagabundo, que tenta se inserir no mundo e não consegue, tenta fazer parte dele.
Uma das alegorias que mais fascina Wim Wenders é a do anjo, utilizado para representar a capacidade que o cinema tem de fazer visível o que nossos olhos não enxergam naturalmente. Em “Asas do Desejo”, os anjos são a metáfora da figura do flâneur, encarnado por Baudelaire, o homem que anda pelo avesso da cidade, que foi transformada pelas forças do capital, que se entrega à contemplação e à reflexão das largas avenidas que brotaram junto com os edifícios e as multidões. Os anjos de Wenders são testemunhas da pequenez e da imensidão das criaturas que contemplam.
Outro flâneur de Wim Wenders é o personagem mudo de “Paris, Texas”. O homem vaga pelo deserto em busca do amor perdido. Guia-se por um nome de cidade. Vaga sem nenhuma chance de encontrar o que procura. O filme é um exercício de melancolia inesquecível que questiona os limites da identidade humana.
Com os filmes desse diretor vamos ao encontro de nós mesmo. Deixamos, durante o espaço/tempo fílmico, de ser o flâneur conformado com o olhar infinito e começamos a olhar para o lado, para os “vagabundos” do mundo moderno. E descobrimos quem são e como vivem.
2. Durante a captação
Toda ação em qualquer roteiro se insere numa atmosfera que dá o colorido geral do filme. Essa atmosfera deve constantemente impregnar o filme inteiro, do começo ao fim. Wim Wenders é um grande criador de ambientes, almas e sonhos, que vão se tecendo lentamente, de forma viva, doce, dolorosa, que nos envolve completamente. Sentimos a alma dos seus personagens em cada plano, nos movimentos de câmera, nas seqüências e na textura da imagem.
Em “Hotel de um milhão”, o filme é permeado por loucos e mendigos. A locação permite que tomemos conhecimento do interior dos personagens que habitam o Hotel. A iluminação escura, os planos à noite, na rua, a paisagem vista da janela trazem um ambiente carregado, subitamente escuro, assustador. E como fuga, a ambientação do quarto do personagem principal, Tom. Quando conhecemos o quarto de Tom, entendemos a sua alma, inocente, desequilibrada, pura.
Já em “Paris, Texas”, Wenders e seu diretor de fotografia, Robbie Muller, capturam a sensação de solidão que envolve o personagem no Texas, através das belas paisagens, quase sempre inundadas de luz. Travis, o protagonista é um solitário que passou 4 anos da sua vida buscando um amor. Seu percurso silencioso varre a imensidão do deserto, ora caminhando sem rumo, ora ao infinito sobre uma linha de comboio desaparecendo do largo horizonte.
“Asas do desejo” é uma tentativa de resgate da harmonia perdida, os anjos da pós-modernidade são o sofrido olhar diante da decadência urbana de Berlim. Imagens frias e sóbrias. O olhar do anjo sobre a cidade, sempre do alto, as luzes acesas e a solidão. Wenders explora muito bem os vôos dos anjos, mostrando toda a sua habilidade de lidar com movimentos de câmera e sua maneira de filmar contornando os atores como se mostrasse uma escultura em alguns travellings de tirar o fôlego.
Tomadas longas e externas, ambientando o espectador com o universo fílmico. Câmeras paradas, uma fotografia impecável, roteiro de reflexão crítica (sobre a família, a televisão, a repressão policial, o governo e o poder econômico que fazem dos cidadãos seres excluídos e marginalizados). Outro ponto importante na obra desse cineasta é a cidade. A rua, o olhar do homem para esse amontoado de prédios, de luzes e de solidão.
A caracterização dos personagens é perfeita, em sintonia com o figurino, o cabelo e suas expressões. São homens desajustados, excluídos, descritos com um estilo naturalista, mas essa linguagem também se alterna com elementos poéticos. Tipos exóticos, diferentes e viciados, que vivem sua individualidade e sua marginalidade.
3. Pós Produção
Falar do Cinema de Wim Wenders é sempre falar em uma excelente escolha musical. A trilha reforça certos momentos da história que é cinestésica, por natureza, ela envolve e embebe a alma. Em “Paris, Texas”, Ry Cooder nos embala com uma trilha que pontua o filme cena a cena. Seus filmes são conduzidos e marcados pelo somo mesmo acontece com “Hotel de um milhão”.
A montagem do filme privilegia o psicológico do espectador, salvo exceções. Nos longas de Wenders, os acontecimentos são internos. Envolvidos pelo filme, somos carregados para dentro dele. Vemos tudo com se fosse do interior e estamos rodeados pelos personagens.
Outro ponto a destacar em sua obra, foi à entrada do digital. Em “Hotel de um Milhão” e “Buena Vista Social Club”, a edição foi feita em AVID.
A beleza desse diretor aparece na abstração, longe da intenção de compreendê-lo, distante da prisão dos diálogos, somos presos por sua linguagem, em como ele sabe escrever bem, com imagens. O roteiro suga, a produção envolve e a montagem prende.
Seus filmes são distribuídos e vistos por todo o mundo, embora este, não seja um cineasta popular. Gostando ou não de sua temática, é indispensável de se ver.


